enygmafilmes

RRR@EnygmaFilmes

28

de
maio

Histórias Extraordinárias

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“Maria da Conceição, a Santa da Vila” (2003)

“Os Crimes da Rua do Arvoredo” (2004)

“O Queixinho da Merência” (2005)

“A Tragédia da Rua da Praia” (2006)

25

de
maio

Oasis @ Gigantinho - Songbird

Oasis’ South American Tour - Porto Alegre, 12.maio.2009

19

de
maio

espiral

Espiral hipnótica verde limão em fundo rosa rodopia ao som do hammond em altas frequências sampleadas de uma época pré-histórica, quando ainda não havia nem ao menos o sêmen nem o óvulo. Incenso e cítara embalam a cirurgia, o cérebro inchado como tripas ao sol, escorrendo sangue e merda pelo pasto, o boi morto de língua de fora na manhã do churrasco festivo. Trip hop cálida em manhãs de primavera, beira da sanga cogumelo quente nas veias. Caminha devagar tropeçando nas macegas, observado pelos olhos redondos dos cavalos tubianos e de quero-queros calados. Cidade fumegante de palavras sem sentido, nenhuma estética no asfalto, que muda de temperatura como a casca de um lagarto estendido no meio dos prédios que se calam como os quero-queros nos ninhos. Gritos ao longe nem sempre são escutados, e quando a garota passa berrando em desepero no fiat em plena Paulista vira-se pro lado do masp e vamos olhar obras de arte. O desespero passa e já vai lá na outra sinaleira. Ele chuta pedaços de bosta seca e encosta o corpo dolorido no arame que divide propriedades sobre a terra. Espiral do sol que desce em ondas bufantes, chuva amanhã, tempestade de vento e raios e árvores que tombam mortas. A eterna tentativa de contar histórias perde o sentido no azul quase branco do céu de meio dia, respirar fundo e juntar as letras da esquerda pra direita, ignorar a espiral que envolve os sentidos ressentidos, jacarés mastigam peixes com a cabeça escura erguida e não ouvem os gemidos por trás das portas. Esquece o que pensou em contar, olha para os pés embarrados e pensa na beira do açude, traíras puxados por linhas grossas, o anzol cravado na boca mole, asfixiando sobre a taipa na quinta-feira santa. Sente-se apodrecer sob o mormaço de verão, sente-se afogar de cerveja nas ladeiras dos jardins, sente medo ao apagar as luzes e ver pontos brilhantes no teto do quarto, faces gigantes em corpos minúsculos. Debates inúteis de fonemas cantados, mantras hipnóticos ao som do baixo e da bateria nos fones de ouvido. Fumaça que amortece os pulmões e impulsiona o cérebro para a beira do horizonte, para o fundo infinito no fim do oceano. Hora de voltar para o almoço, mas a fome é outra, o boi já foi esquartejado e está dividido em espetos malpassados, vinho, cerveja e coca-cola, pensa num redlabel em um copo comprido, três pedras de gelo, no entardecer da varanda, mosquitos, só pra lembrar que o mundo é real. Mas é preciso definir conflitos, criar obstáculos, ter um objetivo claro e definido. Há, sim, apenas croquetes podres sob o vidro do boteco não fazem uma história, há que comê-los e passar mal, há que mentir, trair; a espiral volta a girar na horizontal, perfume forte de ópio entope as narinas. Procura com os olhos uma árvore pra fugir do sol, pra fugir da chuva, pra evitar o vento e acender o isqueiro. Enfia a mão no bolso das calças e retira um recorte de jornal, queima-o sem pressa e observa o fogo atingir seus dedos insensíveis. Lágrimas caem para cima de seus olhos secos, turbinas zunem a milhares de metros acima, pássaros de desejo e promessas exóticas, aeromoças mal-humoradas em uniformes azuis e maquiagem pesada. Um passo depois outro até a proteção da árvore, se houver raios será um problema, mas será bonito, foguetório de reveillon pra assustar os cães e despertar os deuses, tentativa de inverter o giro vertiginoso. Fobia ao olhar pra cima, torres gigantescas uptown, cidade alta de perigos, grades nas portas e janelas, passo a passo aproxima-se da figueira centenária coberta de barba-de-bode. Nenhum pássaro canta. Não sente o toque das pedras sob os tênis, a roupa que tira cai numa trilha de flâmulas suadas. As lágrimas evaporam a centímetros das pupilas. Delicioso torpor. Está nu debaixo do sol. Mas o calor não toca nenhuma célula viva. Surge de repente sentado, costas alinhadas ao tronco. Sonha com um revólver preto de cano curto e cinco tiros, dispara chamas líquidas de chumbo, a língua lambe cabines de acrílico morno e sabor de dedos pegajosos, mastiga um bilhete de metrô com duas viagens ainda, e vê a primeira formiga apontar sua cabeça no buraco. Antenas zumbem em sincronia com a espiral, a boquinha minúscula parece sorrir ao cheiro doce, logo mais e mais formigas emergem da terra seca. Ele fecha os olhos e continua a ver tudo com nitidez. Poeira. Cinzas. E é só. As formigas avançam lentamente sobre seu corpo. Tenta imaginar quando tempo elas levarão para consumí-lo por completo.

14

de
maio

sonata preview

“Somos tempo. Coágulos de tempo que aos poucos, no tempo se desfazem.”
Hélio Pelegrino

14

de
maio

instantâneo.oo1

Bar da tv. Meio da tarde.
Roberto entra. Thomas está sentado numa das mesas, sem casaco, camisa social azul claro aberta no colarinho, gravata frouxa e uma lata de ice-tea de limão entre os dedos. Assiste a um programa no televisor preso à parede. Roberto compra uma barra de chocolate, uma coke em lata e questiona Thomas, que responde sem desgrudar os olhos da tv:
- Como é que foi?
- Nada.
- Achou a velha?
- A velha já era. Tá pirada.
- Como assim?
- Não lembra direito de nada, troca os nomes, esquece os lugares. A filha é quem conta umas histórias, mas ela só sabe de ouvir falar. Sem a velha, não tem matéria.
- Que merda.
Thomas bebe um gole direto da latinha. Apalpa o bolso das calças, da camisa, procura algo no casaco mas volta de mãos vazias. Volta-se para Roberto:
- Tem um tequinho aí?
- No, man. Se tiver eu sopro.
- Pau no cu. Vou sair pra fumar.
- Não esquenta por uma matéria, porra.
- Porra o caralho. Tô de saco cheio de ficar enfiado aqui nessa merda do cu do mundo, porra. Pensei que com essa eu tirava o pé do barro. Tá cheio de neguinho de merda por aí se criando, escrevendo livro, trabalhando na Globo, famosão, enchendo o cu de grana, e eu sigo fudido nessa porra do caralho de merda.
- Não é assim, também, pô.
Roberto olha em torno, preocupado, baixa a voz:
- Vai queimar teu filme, assim.
Thomas levanta-se e apanha o casaco.
- Foda-se, porra. Eu sei que eu posso, tá entendendo. Mas a coisa não anda, é essa travação.
- Mas tá dureza pra todo mundo.
- Foda-se. O problema sou eu mesmo, que não dou uma dentro. Só faço merda. Consegui pirar até a velhinha da matéria, cacete. Onde eu toco vira merda, sou o Midas da caganeira universal.
Saem do bar para o estacionamento, ao ar livre. Céu azul sob a enorme antena transmissora do canal de tv. Funcionários carregam equipamentos de gravação numa van estacionado com o logotipo do canal. Roberto acende um cigarro:
- Tá bom, Midas. E qual é a pauta agora?
- Caralho, nem sei. Algum pau no cu que estuprou a filhinha de cinco anos. Ontem foram dois vagabundos duma gangue de Canoas que rebentaram a cabeça dum pirralho com um paralelepípedo pra roubar um bonezinho dos Yankees que ele tinha ganho da namorada.
- Puta merda.
- Boné paraguaio, claro, que a guria nunca foi mais longe que São Leopoldo. Pegaram o guri na saída do Trensurb em Sapucaia; ele correu, eles foram atrás; cagaram a pau e deram com a pedra na cabeça. Doze vezes.
- Mundo cão.
Thomas endireita o nó da gravata, olhando-se no retrovisor da van. Ajeita o cabelo com as mãos e dobra o casaco sobre o banco de trás. Rosna para o espelho, imitando um cachorro, e sorri para Roberto.
- E aqui vai o velho bulldogão. Não, melhor: rotweiller. É, meu velho, se uma coisa eu aprendi foi que nessa profissão, pra se dar bem o negócio é ser mais cachorrão que os outros. E tá na hora de eu sair por aí mijando nuns postes dos grandes, meu chapa.

4

de
maio

em memória de Mario Alberto Nascimento

O Jaime Lerner me pede pra falar sobre o Marião num parágrafo para o boletim da aptc, e a primeira sensação que me vem à mente é a impossibilidade de conter em tão pequeno frasco uma figura enorme como nosso companheiro que agora se vai para os estúdios celestiais onde as filmagens prescindem das câmeras. A imagem que fica é tão distante; não o rosto distorcido de olhos abertos para dentro, terno cinza coberto de flores amarelas num quadro trágico emoldurado em madeira escura, mas sim aquele neoíssimo realismo da figura envolta num macacão jeans que irrompe adentro nossa sala de primeiranistas da Famecos - final dos setenta - pra falar das eleições para o CAAP; cabelos longos, voz tão larga quanto os gestos desenhados a partir do discurso político e de uma verdade corporal muito própria, cativante; leal como se mostraria tantas vezes desde então, amigo de fé, irmão, camarada. A política como centro, o cinema por meio e o homem por fim. Mário nunca teve dúvida sobre como seria seu cinema. Vigoroso, corajoso e bravo, seu espírito guerreiro era aveludado pela extrema elegância, delicadeza e carisma. Afetuoso, demonstrava no cinema a mesma generosidade que na vida, e tantas vezes trabalhamos juntos, desde os primeiros 8mm nas aulas do Aníbal e do Gerbase, num grupo com a Regina Giavarina e a Magda Cunha. Ele já rodava documentários em 8mm no Campo da Tuca - uns trinta anos antes desse tipo de filme entrar na moda pela mão das ricas produtoras. Ele fazia na raça. Depois em Caxias, outubro de 82, faria junto com Jair Torelly e Paulo Soccol a obraprima menos vista do planeta, o super-8 Cio da Terra (  ver trecho do clip Pavão Mysteriozo no Cio da Terra).  Dali pra frente foi cinema na veia. O Grupo Cinema de Combate, entrincheirados nos sofás do saguão do Majestic nas assembléias de fundação da APTC, Viva a Morte como assistente do Matico; a Clip lá na zona sul na casa do Assis Hoffman; a Enygma TVC, em sociedade comigo e com Adriana Borba; o Gato do Saturnino lá no Norte, o Snake muitos anos depois; recordo tudo meio fora da ordem, pois quem lembra certinho é porque não estava lá, como diz o Peninha sobre o Cio da Terra.

Mais recente foi a parceria que fizemos, ele como roteirista e eu diretor, no episódio Maria da Conceição, do Histórias Extraordinárias, aliás roteiro brilhante do Marião que criou uma rapperentista genial e propiciou um dos trabalhos meus como diretor de que mais gosto. Na política, voltamos a estar juntos ao sermos convocados por amigos para fundar uma chapa para a APTC, eu de presidente e ele como vice. Claro que ao assumirmos os amigos que nos convocaram foram se afastando e no fim ficamos nós dois mais a Neca e o Beto, e na segunda parte do mandato o Mário assumiu como presidente da APTC (Betinho Baum me afirma ter sido isso de meados de 2004 a meados de 2005). Mais recente ainda é o curta Um Aceno na Garoa, roteiro e direção do Mário sobre o conto do Faraco, peça delicada e contundente, valioso brilhante em sua simplicidade e força, filme pouco visto como a maior parte do trabalho do Marião. Fica sim um gosto amargo. De ver um colega brilhante, conhecedor do metiér, com tantas ideias e tanto a expressar através do seu cinema, partir assim sem que sua obra tenha recebido a dimensão devida, bruscamente interrompida. Mas ele nunca chorava pelo leite derramado, preferia apontar suas lentes para o coração do problema e enfrentar mais uma batalha com seus sonhos, sua máquina de escrever, a câmera e a moviola. Mário Alberto Nascimento, meu grande colega e querido amigo. A impermanência às vezes é mesmo uma grande cagada de jacu, meu velho. Que a terra te seja leve. Adeus.

Leva a admiração e a saudade eterna do amigo Rogério Brasil Ferrari.

Porto Alegre, 1º de maio de 2009.

4

de
maio

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